Ser e não ser juiz

A magistratura é uma carreira muito procurada nos concursos, contudo, nem sempre percebemos nos candidatos a precisa percepção do trabalho a ser desempenhado pelo juiz. Pensei em 11 pontos “desmistificadores”.

  1. Sim, é difícil ingressar. Não por sadismo das bancas, mas porque queremos apenas os melhores.
  2. A carreira é dura e tem privações. Precisa pipocar entre comarcas, viajar à noite para fazer audiência no outro dia.
  3. Os estudos não terminam depois do concurso. A magistratura é como a vida dos tubarões: parou de nadar (estudar), morreu!
  4. Não espere glamour. Usar toga é raro e não tem quem peça para todos levantarem quando você entrar. Respeito é esperado com a instituição Judiciário, para a pessoa juiz, depende só de si. Ah, também não ganha martelinho, para pedir silêncio.
  5. Juiz não tem horário de expediente. A função segue durante a noite e nas férias. Não só pelo trabalho em casa, mas por carregar na cabeça as dezenas de dúvidas de julgamentos.
  6. Acha que ser juiz é não ter chefe? Errado, tem metas de tudo e de todos. Mas a cobrança mais forte é da sociedade: seriedade, retidão, honestidade absoluta. Sempre.
  7. Delegação geral aos assessores é outra fábula. Um dia normal de trabalho envolve análise da pauta, sentenças, despachos, administração da vara, recebimento de advogados e longas audiências. E tudo muito rápido, porque tem de cumprir as metas, lembra?
  8. Super salários é lenda urbana. Além da iniciativa privada, há vários funcionários públicos com remuneração melhor, e trabalho bem menos angustiante.
  9. Juiz não pode ser burocrata. Julgamento autômato é criminoso e desonra a profissão. Precisa atentar a cada detalhe, avaliar criticamente a tradição e a força dos avanços sociais.
  10. Decisões de risco são tomadas diariamente, e ninguém perdoará seus erros. É como vida de goleiro: basta um segundo de vacilo para prejuízos irreparáveis.
  11. Juiz não serve para ser covarde e covarde não serve para ser juiz. Receio de contrariar interesses poderosos? Cogite profissões mais tranquilas, porque, num dia fácil, isso acontece dezenas de vezes.

Se ainda assim, o candidato se interessar, saiba que poucas coisas podem ser mais honrosas que a delegação da comunidade para encarnar defesa, interpretação e efetivação de seus mais altos valores de convivência. Chegar em casa à noite e perceber que realmente se conseguiu ficar pelo menos próximo a isso, pode convencer que o direito talvez não seja um simples jogo de sombras. Quem sabe?

Rodrigo Trindade de Souza –  Juiz do Trabalho, professor e diretor cultural da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região (Amatra 4/RS)